17 de abril de 2018

O reino. Ruppert & Mulot (Douda Correria)

Este será apenas um pequeno recado. Foi lançado recentemente uma edição portuguesa do magnífico objecto-jornal O Reino, da dupla experimentalista de banda desenhada Ruppert e Mulot, projecto este de que já havíamos dado conta na sua edição original há uns anos, aqui.

As mais das vezes, a existência de edições portuguesas não são propriamente motivo de júbilo, sobretudo se se seguirem os caminhos mais normalizados de sempre... Porém, neste caso não estamos a falar dessas máquinas comerciais já instituídas, mas tampouco de "apostas" em obras históricas ou significativas por plataformas editoriais sólidas, ou sequer das também agora usuais colaborações entre editoras nacionais e estrangeiras na publicação de um título. Trata-se, desta feita, de uma acção feita de paixão, risco e coragem.

A edição portuguesa deste jornal é feita pela Douda Correria, uma editora afecta sobretudo à poesia contemporânea e a outros objectos literários não-identificados. Não deixa de ser curioso que, para encontrarmos atenções particulares ao que ocorre na cena contemporânea mais afecta à experimentação, à verdadeira invenção da linguagem, e não apenas a sua clássica confirmação, não se possa contar propriamente com as plataformas mais comuns, mas sim de sectores inesperados. Ou, na verdade, não é nada curioso, é condição sine qua non dessa distribuição de atenção. Seja feita a sua vontade. 




15 de abril de 2018

Futuro proibido. Pepedelrey (Escorpião Azul)


Primeiro capitulo do que se adivinha ser uma longa saga de ficção científica, este volume de 60 páginas não irá satisfazer modos clássicos e contidos de constituir uma acção narrativa. Se começamos num local, rodeados de personagens que mal criam relações entre si para o leitor e começa a emergir uma possível intriga concentrada, logo há uma rasteira que impele todo esse mundo para segundo plano. Mas quando julgamos ter atingido um outro nível, que nos permitisse cartografar a dinâmica, dá-se outro salto. (Mais)

14 de abril de 2018

A leoa. Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg (G. Floy)


A longo prazo, será produtivo pensar na colaboração desta dupla de uma forma mais analisada. Tentar compreender como é que atingem uma fórmula de fundação sólida tal que a factura dos seus livros não pode ser considerada do ponto de vista de uma “história com desenhos” nem de “desenhos historiados”. Todos os factores contam na sua estruturação prístina, inconsútil, enquanto banda desenhada. A leoa é uma biografia da escritora dinamarquesa Karen Blixen, autora da famosa autobiografia África Minha (graças igualmente ao filme de Sydney Pollack de 1985), A festa de Babette, e de Contos e Inverno. Uma biografia que vai além desses instrumentos, pra devolver uma vida profunda, imaginativa e vivida dessa personagem. (Mais) 

11 de abril de 2018

Quireward # 03.

O terceiro número da Quireward está finalmente disponível. 

Com histórias em inglês, este número inclui: o terceiro e último episódio de "Matias", desenhado pelo Sérgio Sequeira; um capítulo auto-suficiente de uma série de ficção científica, "David Kino", desenhada pelo André Pereira; uma curta história desenhada pela Marta Teives; duas das peças antes publicadas na Cais desenhadas por Vasco Ruivo e Catarina Coroado - todas elas escritas por mim -; e uma história de Nuno Fragata à qual acrescentei texto. 

A capa é de Wagner Willian e o design de Playground Atelier. Impresso a uma cor em risografia. Será agora lançada em Portugal na Feira Raia, este fim-de-semana, no Anjos 70. 34 páginas. 100 exemplares.

[sobre # 01]

[sobre # 02]

8 de abril de 2018

Noite estrelada. Jimmy Liao (Kalandraka)


Como ocorrem nos casos de alguns dos projectos de Maurice Sendak, Shaun Tan, Brian Selznick e António Jorge Gonçalves, por exemplo, também alguns dos livros de Jimmy Liao vivem numa fronteira algo esquiva entre a banda desenhada, o livro ilustrado, e a literatura tout court. Noite estrelada tem apenas umas poucas páginas com texto isolado, mas depois desdobra-se em spreads, ilustrações por página, com texto ou sem ele, e pelo menos uma sequência dividida em vinhetas. Tipologias e divisões que, para além disso, têm explorações formais no interior das próprias imagens, que apresentam planos distintos, texturas, espaços com objectos repetidos (sejam padrões no chão, bibliotecas, jardins, florestas ou os telhados de prédios cheios de néons). (Mais) 

6 de abril de 2018

Santa Camarão. Xavier Almeida (Chili Com Carne)


A possibilidade de escrever uma “autobiografia” de uma outra pessoa, em que um artista “empresta” a sua linguagem para dar voz e corpo à biografia de outrem mas contada na primeira pessoa, não é de todo inédita, se nos recordarmos do projecto de Emmanuel Guibertcom Alan Cope. Os modos de produção são diferentes, porém, já que Guibert colhia a biografia de Cope a partir de conversas gravadas, directas e ao vivo, ao passo que Xavier Almeida estará a trabalhar à distância. O pugilista José Santa “Camarão”, nascido em Ovar e famosíssimo durante as décadas de 1920 e 1930, morreu em 1965. Almeida, instado por um artigo de jornal e criando laços com a sua terra (é também vareiro), criou este pequeno livro de banda desenhada a partir da pequena biografia escrita pelo próprio boxeur. (Mais) 

5 de abril de 2018

Do Inferno. Alan Moore & Eddie Campbell (Biblioteca de Alice)


A palavra “autópsia”, na sua acepção moderna e médica, formou-se no cadinho da emergência do pensamento científico, já no século XVII. Originalmente, a palavra significará tão-somente “ver com os próprios olhos”, “testemunhar” (e isto implicará sempre a ideia desta visão ser a de um terceiro sobre um evento que lhe é externo). Apenas na modernidade passa a significar “a dissecação de um corpo morto para determinar a causa da morte”. 

Como muitos outros críticos já o disseram, e acima de tudo, o próprio protagonista deste imenso romance – e esta será uma das poucas instâncias em que o emprego deste termo técnico literário não é enviesado – em banda desenhada, From Hell/Do Inferno é uma investigação dolorosa, cruel, e violenta ao corpo morto que daria origem ao século XX. Ao contrário do que se poderia imaginar a partir de uma mera descrição, ou pior, através da miserável adaptação cinematográfica de 2001 pelos irmãos Hughes, From Hell não é um “whodunnit”. Focado nos assassínios de prostitutas em Whitechapel, Londres, no estertor do século XIX, que ficariam conhecidos como o caso de “Jack, o Estripador”, o livro assinado por Alan Moore e Eddie Campbell não se interessará tanto pela identificação do assassino, já que parte desde o primeiro momento pela sua revelação: o Dr. William Gull. O que interessa aos autores é a pesquisa do como aconteceu e, até mais, o porquê íntimo dessas acções. (Mais)

4 de abril de 2018

Desolation.Exe ESP. Berliac (Fosfatina)

Serve o presente post tão-somente para indicar que a edição profissional e em língua espanhola de Desolation.Exe, de que faláramos anteriormente na sua primeira versão, foi publicada. O texto que tínhamos escrito foi transformado em prólogo, o que muito nos honra. 

Em breve, daremos notícias do novo projecto do autor, que tem tido alguma recepção complexa, Sadboy.
Nota final: agradecimentos ao autor pelo volume.

2 de abril de 2018

Ermal. Miguel Santos (Escorpião Azul)


Miguel Santos apresenta aqui aquilo que se chama na indústria de entretenimento um projecto “high-concept”, isto é, algo que se concentra de forma potente numa premissa, em si mesmo pejada de implicações narrativas. Neste caso, trata-se de uma história alternativa, passada numa província colonial portuguesa em que a guerra colonial terá encontrado uma continuidade terrível por estar associada a um confronto nuclear no hemisfério norte. Como está indicado no próprio livro, numa espécie de sub-título, neste universo a Guerra Fria “aqueceu”. (Mais) 

26 de março de 2018

Master Song. Francisco Sousa Lobo (Kuš)


Este é o último livrinho do autor, e apesar de textualmente estar muito distante do que fez até à data, não deixa de ser surpreendente a maneira como se encaixa perfeitamente no seu programa a longo prazo. Ainda que não haja qualquer elemento que permita uma leitura auto-ficcional, e muito menos autobiográfica, não deixa de ser possível criar uma redoma que, unindo toda a obra, nos faça pensar na continuação e uma pesquisa muito pessoal de uma expressão da própria intimidade. Contado na primeira pessoa, e em verso, podendo falar-se de dísticos rimados, a parte textual transforma-se, como o título indica, numa canção. E como uma canção, ouvi-la várias vezes vai despertando novas ideias. (Mais)

25 de março de 2018

Nonnonba. Shigeru Mizuki (Devir)

Uma vez que havíamos escrito um longo texto sobre esta obra quando de uma sua edição em francês, há uma década, remetemos a esse texto para a análise das suas conquistas temáticas, formais, parte do contexto de produção e a sua desenvoltura diegética e simbólica. É, portanto, um momento feliz ao termos acesso, no nosso idioma, a uma das obras mais amadas de um grande público japonês, e uma das obras que mais contribuiria (e no seio da própria obra do autor) para a divulgação popular das figuras fantásticas folclóricas daquele país, conhecidas como yokai, e que hoje têm uma circulação mais comum pela cultura popular. (Mais) 

23 de março de 2018

Duplo Vê/O Tautólogo. Mattia Denisse (dois dias)


Por esta altura, começa a construir-se um edifício feito de elementos singulares, e a que se poderá vir a dar o nome de “obra gráfica”, de Mattia Denisse, designação que tanto terá a felicidade de agrupar essa sua produção por um traço material, permitindo uma visão de conjunto e uma consideração das constantes, como poderá incorrer em distrações relativas a especificidades de cada um desses mesmos elementos. (Mais) 

15 de março de 2018

Livro das imagens. Sei Miguel (O Homem do Saco/Marmita de Gigante)


É por vezes difícil, se não impossível, lermos, vermos, interpretarmos e pronunciar um juízo de valor sobre uma determinada obra nova sem recorrermos a elementos que lhe são extrínsecos. As mais das vezes, isso prende-se a questões de biografia, círculo social ou outra actividade profissional, pública ou artística que o autor ou autora exerçam e que parecem fazer pressão sobre aquelas que se nos apresentam no momento. É isso o que sucede quando se procuram “traços” de arquitectura em desenhistas que têm formação de arquitecto (e tão distintos como Richard Câmara, Francisco Sousa Lobo, Pedro Burgos, Ana Cortesão, André Pereira), ou se pretendem compreender como actividades musicais podem informar a prática da banda desenhada (Carlos Zíngaro, Ilan Manouach, Brian Chippendale, André Coelho). Quase sempre esse exercício é supérfluo e inválido, uma vez que providencia mais com elementos de cegueira e limitação do que um caminho para cumprir uma melhor leitura crítica. (Mais)

14 de março de 2018

Fearless Colors. Samplerman (Mmmnnnrrrg et al.)


Na contracapa deste volume antológico, que colecciona grande parte da produção do autor francês nesta sua vertente de bandas não desenhadas mas coladas, encontramos uma mulher, numa espécie de função de Atlas, a segurar um globo terrestre. Calcorreando a sua circunferência, encontramos várias personagens retiradas de variados territórios da banda desenhada, que apesar de se encontrarem num putativo intervalo limitado – diríamos a banda desenhada de género(s) e comercial das décadas de 1930 a 1950, sobretudo americana –, representariam vários registos: a aventura, o policial, a comédia, o biográfico-histórico, o fantástico, etc. Há femme fatales, um vilão, um hillbilly, um cientista ao microscópio, bebés nadadores, uma tribo de mulheres-gato, a mão de um pescador, uma pomba e uma manivela. Talvez estas personagens avulsas e diversas não tenham aqui um valor narrativo propriamente dito, mas em relação à expressão feliz e celebratória da cariátide do mundo poderão cumprir o papel de signos de um arquivo maior: aquele que está disponível e é empregue pelo artista, para a sua prática transformativa e criativa. (Mais)

2 de março de 2018

Pentângulo 01. AAVV (Ar.Co/Chili Com Carne)

Serve o presente post para indicar que já está em circulação e venda o primeiro volume da Pentângulo. Trata-se de um projecto nascido no seio dos cursos de banda desenhada e ilustração (e afins) do Ar.Co, em colaboração com a editora Chili Com Carne, e pretende ser um gesto anual.

Estes livros agregarão quer trabalhos desenvolvidos no decurso do próprio processo de ensino-aprendizagem, destacando-se os melhores "T.P.C.s", quer projectos pessoais dos alunos, que se integrarão no ensejo central do título. É o caso das produções de Sara Boiça, Mathieu Fleury, Simão Simões ou Stéphane Galtier. Em princípio, existirá uma linha temática que conduzirá uma das partes dos volumes, que é depois explorada da forma mais variada possível. Neste primeiro gesto, o tema foram as mulheres artistas dos vários movimentos das vanguardas estéticas do início do século XX, sobretudo russas. 

Mas haverá igualmente oportunidade para envolver ainda, como é o caso, os professores ou antigos alunos, que poderão ir conquistando maior ou menor espaço na paisagem editorial destes campos. Com efeito, encontrarão aqui trabalhos de autores como Rodolfo Mariano, Cecília Silveira (com uma peça a um só tempo divertidíssima e politicamente forte), Vasco Ruivo, Dileydi Florez (uma peça visualmente soberba), o colectivo Triciclo, Martina Manyà, Gonçalo Duarte e Igor Baptista, cujos nomes têm já lugar nos circuitos de fanzines ou da edição independente, e conhecidos dos leitores mais atentos. Francisco Sousa Lobo, antigo aluno, dispensará apresentações, dada a sua fortíssima presença e produção na "cena" nacional. Daniel Lima (na capa) e Amanda Baeza também participam, na qualidade de formadores da casa.


Também na qualidade de docente daquela instituição há uns anos, e como aspirante a argumentista, participo no volume duplamente. Em primeiro lugar, com um brevíssimo ensaio sobre o plágio na banda desenhada. Em segundo lugar, com uma história de dezassete pranchas (mais título), que respeita o tema indicado acima mas através de uma ficção, e com desenhos de Carolina "Zarolina" Moreira, Vasco Ruivo, Cecília Silveira e Martina Manyà, cada uma destas assinaturas tomando uma das camadas de Estratigrafias (a imagem que mostro é uma montagem de cortes).

Procurem!

1 de março de 2018

Participação em Mesa-redonda: 7 de Março, FLUL


Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, a 8 de Março, terá lugar uma mesa-redonda na Faculdade de Letras de Lisboa, organizada com a American Corners, dedicada à personagem Mulher-Maravilha. O painel será composto pelas Professoras Lisa Botshon e Diana Ramos, e este vosso servente. 

Terá lugar na Quarta-feira, dia 7, pelas 17h00, no Anfiteatro III, da Faculdade de Letras de Lisboa (à Cidade Universtária).

Enquadrado num contexto da representação feminina na banda desenhada e no entretenimento popular, na história e desenvolvimento múltiplo desta personagem criada em 1941 por William Marston e as sucessivas revisões, entre as quais a mais recente versão cinematográfica, de enorme impacto para além dos fãs usuais, e questões mais abrangentes como o feminismo contemporâneo e o papel da fantasia (depreendendo-se aqui um termo específico de laivos psicanalíticos e políticos), da minha parte apenas tentarei não abusar do mansplaining (mas não prometo, nem desejo, abster-me dele!).

19 de fevereiro de 2018

Ar.Co: Workshops de Argumento


Serve o presente post para anunciar que começará esta semana uma série de workshops de argumento para banda desenhada na escola Ar.Co, em Xabregas, Lisboa, que está abertos a inscrições externas, servindo de cursos curtos. O formador é este vosso criado e amigo. As sessões são sempre às Quartas, entre as 18h30 e as 20h30. 

O público-alvo são todos aqueles que desejem aprender os primeiros passos em termos de planificação de uma história a ser contada visualmente ou artistas que pretendam melhorar os seus processos de trabalho. 

A primeira sessão, "autónoma", é já esta Quarta-feira, que funcionará como uma espécie de masterclass sobre o papel do argumentista na história da banda desenhada, mas também alguns dos desenvolvimentos contemporâneos, e uma breve panorâmica sobre alguns dos métodos empregues nas várias indústrias.  

Seguir-se-ão depois três cursos de três sessões de duas horas cada, dedicadas à escrita e desenvolvimento de argumento para banda desenhada (ou outros territórios contíguos) nas seguintes frentes: adaptação de contos, adaptação de poesia, criação a partir de imagens encontradas. Poderão inscrever-se em todos ou apenas em um, havendo conteúdos independentes. 


Para mais informações, visitem o site do Ar.Co [em «Formação» - «Ilustração/Banda Desenhada» - «Formação pontual»] ou telefonem para o 218801010. 

2 de fevereiro de 2018

Gravidez. Júlia Barata (Tigre de Papel)

De tempos a tempos, vemos a abertura de novos territórios na banda desenhada em Portugal. Gravidez, não sendo propriamente uma novidade em termos genéricos ou estilísticos, é-o todavia no seio da nossa própria cena, que ainda continua, apesar da sua mais recente saúde, arreigada a abordagens relativamente convencionais e expectáveis. Este livro, para além de ser a primeira experiência de fôlego da artista e ilustradora portuguesa radicada na Argentina, é também a primeira incursão neste campo criativo pela livraria-editora Tigre de Papel, tornando-se portanto duplamente uma “nova voz”. (Mais) 

24 de janeiro de 2018

Desenhos efémeros. António Jorge Gonçalves (Orfeu Negro)

Serve o present post para indicar que já está disponível o volume Desenhos efémeros, de António Jorge Gonçalves. Trata-se de um tomo considerável, com mais de 300 páginas, que reúne material fotográfico e documental das experiências em levar o acto de desenhar para os palcos preconizado pelo artista. Seja sob a forma de uma banda desenhada “explodida”, com a cenografia, figurinos, cenários, etc. de O que diz Molero, em 1994, sejam os primeiros “diálogos” de improviso com músicos a solo ou aos variadíssimos projectos de espectáculos de desenho ao vivo que tem vindo a desenvolver nos últimos anos, nos mais variados contextos, e em âmbitos distintos em termos de público, género, grau de interacção com os espaços, e as relações interartes implicadas, temos aqui um passeio cronológico dessa dimensão do seu trabalho.



O volume é sobretudo imagético, e é fruto de um aturado trabalho de arquivo, pesquisa e, necessariamente, uma espécie de longo gesto de agregação das colaborações de Gonçalves, vistas não apenas como momentos de aprendizagem, encontro, experimentação, interrogação, desenvolvimento do próprio artista e da sua lavra, como dos estímulos mútuos que permitiu tanto aos seus interlocutores criativos como aos públicos. Como modo de reforçar os conceitos que subjazem estes actos e ajudando à consolidação da história, o autor convidou várias pessoas para escreverem sobre esta dimensão, sobretudo junto a colaboradores de longa data. É assim que se arrola a presença de Rui Eduardo Paes, Carlos Pimenta e, claro, Nuno Artur Silva, com quem Gonçalves criou a série Filipe Seems, trazendo uma nova exigência à banda desenhada contemporânea portuguesa. Além dos ensaios desses três colaboradores, conta-se ainda com uma entrevista com Anabela Mota Ribeiro, deslidando o percurso e os desdobramentos sucessivos da linha, associando esses espectáculos à banda desenhada e ilustração, aos famosos desenhos no metro, a outras vertentes. Conta-se ainda com um breve texto deste vosso criado, numa tentativa breve de pensar as implicações específicas do desenho em performance, intitulado “Da efemeridade da retina”.