27 de julho de 2017

O Homem que passeia. Jiro Taniguchi (Devir)

Em boa-hora é relançado este título junto ao público português, numa nova tradução (e novo título), e num formato melhorado, ou pelo menos, individualizado, do que a anterior edição da própria Devir através da colecção Série Ouro com distribuição do Correio da Manhã, há mais de dez anos. Todavia, precisamente por termos feito uma leitura, que esperamos ainda pertinente, da mesma obra então, a esse texto remetemos, deixando aqui considerações de outra natureza. 

O objecto é em si tem outras diferenças substanciais. Materialmente falando, tem uma capa mais atraente e que se prevê ser um projecto gráfico sustentado na nova colecção de mangá da editora, com trabalhos de maior maturidade e para um público mais generalista. Poder-se-ia ter imaginado numa encadernação mais robusta, próxima da colecção Écritures, da Casterman (com a qual partilha o mesmíssimo formato), mas haverá razões substanciais para esta opção. Em termos de conteúdo, porém, a escolha da Devir é bastante feliz. Em primeiro lugar, não temos aqui uma edição que reconstitua as páginas numa ordem de leitura ocidental e em que cada vinheta se mantém idêntica mas numa posição relativa da prancha invertida, e muito menos as antigas edições “flipped”, em que pura e simplesmente se apresentava uma inversão de toda a prancha. É uma edição tal qual a original japonesa, permitindo esta magia visual tão própria da banda desenhada e passível de ser desfrutada pelos leitores não-japoneses (de resto, prática da casa). (Mais)

Em segundo lugar, a presente edição reúne todas as narrativas originais da colecção e algumas peças adicionais. Para além de todas as histórias que partilham o mesmo protagonista, o “sarariman” que observa poeticamente as pequenas trivialidades que povoam as paisagens urbanas que atravessa, acrescentam-se outras histórias, com personagens bem distintas, justificando a divisão do livro em “partes”, inclusive uma galeria de imagens soltas. É algo discutível se os termos dessas histórias são os mesmos, istoé, se a sua natureza coincide com a filosofia das histórias do “homem que caminha”. Uma dessas histórias, “Continuação do sonho”, remete para um desencontro emocional de um casal, “Noite de luar” para uma surpreendente e súbita fantasia de uma viagem no tempo, e “Uma ilusão de Tóquio” para uma pequena novela passional. Não deixa de enriquecer a edição, sem dúvida, mas destoam em relação à calmia e “nadas” que são as outras peças.

Seja como for, reunindo, portanto, trabalhos de 1992, e depois de 2003 e 2015, não deixarão de servir igualmente de sinal das distintas abordagens gráficas do autor. A sua linha límpida e clássica da primeira fase desta pequena saga, sob a influência maximal de Moebius, algumas das aguarelas coloridas (mas aqui publicadas a preto-e-branco), e uma linha carregada, de alto contraste, menos elegante, que remete a algumas das suas obras de hard boiled... Um percurso que os leitores deste espaço sabem ter sido abordado ao longo das nossas leituras da sua obra publicada em francês, inclusive a monografia que lhe é dedicada por Peeters.


Como se sabe dessas e outras leituras, uma das dimensões sociais curiosas da obra de Taniguchi na sua recepção internacional é a maneira como vem complicar a palavra mangá, sobretudo quando esta é revestida de expectativas redutoras em termos de estilo, género, qualidade literária, densidade emocional e intelectual. Taniguchi não é o inventor de um novo tom na banda desenhada japonesa (recordemos toda a geração dos anos 1960 dos gekiga e da Garo, que foi decisiva e quase esmagadora na influência na primeira fase de trabalho de Taniguchi), mas a sua projecção internacional (sobretudo francesa, mas não só) veio desarrumar as categorias entretanto formadas. Toda a octanagem e aventura de um Akira, de um Dragon Ball, de um Naruto, evola-se por completo nas páginas de O homem que passeia, para se revelar uma experiência tanto terra-a-terra quanto transcendental na sua universalidade. É possível que a colecção da Devir deseje precisamente mostrar essa outra dimensão (agora sonhemos com edições de Hagio, Suzuki, Abe, Tsuge...).

Naturalmente, é necessário ter atenção a uma matização substancial da elevação e isolamento de Taniguchi nesta narrativa. Afinal de contas, no ano em que a Casterman lançou L'homme qui marche, 1992, também lançou Gon, de Masashi Tanaka, e de certa forma a aposta em Taniguchi devia-se ao facto de ter uma estrutura narrativa, formal e conceptual muito próxima das categorias entretanto existentes da banda desenhada franco-belga contemporânea de cariz “literário”. Seja como for, é a qualidade reflexiva do protagonista que agirá sobre o espírito dos próprios leitores, e que o tornou uma estrela nesse diálogo e, sem dúvida alguma, um factor importante de abrir caminhos, que depois se expandiriam das mais diferentes maneiras.

Gostaríamos de deixar uma pequena nota sobre a tradução do título, e admitindo desde já que poderá haver aqui um erro tremendo da nossa parte, dado o conhecimento deficitário da língua japonesa. Uma tradução não é jamais uma transposição exacta de uma língua para outra, mas uma intepretação que permite sempre um pequeno intervalo de variações pertinentes. Logo, as diferenças que se encontrarão maioritariamente entre a versão de 2005 e a presente não são significativas, sendo a tradução presente fluida e justíssima (seria bom sabermos se foi directamente do japonês, ou de outra língua intermédia). Todavia, o título suscita algumas dúvidas. O título original em japonês emprega o verbo aruku, que significa literalmente “caminhar”, apontando sobretudo para o acto físico do movimento pelo espaço, e implicando toda uma série de preposições necessárias conforme a direcção, a circunstância, e a inclusão ou exclusão de informações na frase. A ideia de “passear”, em português, inclui logo uma segunda dimensão de propósito (ou até vagueza de propósito), de disposição mental, de tempo livre, de “utilidade” até. Ora se se poderá discutir que, com efeito, estes pequenos contos de Taniguchi querem sublinhar a flânerie do protagonista (suspendamos as últimas três histórias, as quais, como dissemos, são de um tom díspar), e os resultados dos encontros fortuitos do momento e a sua capacidade reflexiva e introspectiva, seria importante deixar o verbo que descreve a acção dele “esvaziado”, desprovido de uma interpretação mais decisiva, um pouco da maneira despojada do zen... é a acção que deve levar ao encontro do propósito, e não colocar nele logo um propósito (o qual poderá ser ou não cumprido). Na nossa óptica, Taniguchi criou um “homem que caminha” (como a famosa estátua de Giacometti, e o seu desequilíbrio permanente, tal qual cantado por Laurie Anderson, como havíamos mencionado no texto anterior), e se há um “passeio” que depois emerge, é fruto desse encontro, e não de uma busca. Como reza Matsuo Bashō, “Este caminho, não o toma ninguém, só o ocaso outonal.”

Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do volume.

5 comentários:

pco69 disse...

Decidi não adquirir esta versão (pelo menos, enquanto o preço não diminuir), por já ter a versão da coleção Ouro.

E uma das dúvidas/questões relativas à aquisição, prende-se com a questão da leitura ser igual ao original japonês, (direita para a esquerda) e se isso traz realmente algum acrescento à obra em si. Na análise é referido que sim, mas continuo com a essa dúvida....

Pedro Moura disse...

Caro pco69,

Compreendo perfeitamente o problema de optar por comprar "um mesmo" livro, quando há tanta escolha a fazer. A meu ver, esta edição tem mais material, o que agradará a completistas, mas como disse, algum desse material não é, com precisão, da mesma "saga" (e até "filosofia") do "Homem que caminha". Quanto à edição seguir o padrão e organização original japonesas, a meu ver é uma vantagem, já que há distribuições das imagens, direcções das linhas, e organizações visuais-narrativas que foram pensadas de uma forma e que as transformações/adaptações ocidentais poderão distorcer. No entanto, dependerá também da capacidade do leitor em ler "nessa direcção", já que exige, ao princípio, algum esforço... Não estou a chamar nomes a ninguém, atenção!! Lembro-me das primeiras vezes em que fui confrontado com este tipo de edição, há quase vinte anos... isto é, edições traduzidas em línguas que entendia, e me convidava à leitura propriamente dita (e não simplesmente a "olhar" para edições japoneses, que tinha mas não compreendia, fora "os bonecos"). Foi difícil, mas agora faz parte dos meus hábitos.
Espero que tome a decisão que lhe for acertada, mas também posso aconselhar a visitar uma das Bedetecas (Lisboa, Amadora, Beja) e ler esta edição, antes dessa decisão.
Cumprimentos,
Pedro Moura

MMMNNNRRRG disse...

Daqui um ano na Bedeteca de Lisboa quando o livro vier em Depósito Legal...
bof!

HLM disse...

Também tenho a edição do Correio da Manhã, mas compraria esta, sendo uma edição mais cuidada, se não fosse tão cara.

Pedro Moura disse...

Caro HLM,
De facto, o meu papel é escrever sobre os livros em si, e sou um privilegiado, por vezes, ao recebê-los. Mas com efeito, tendo em conta a materialidade da publicação, o preço pode ser um pouco esticado...