7 de julho de 2017

Coisas de adornar paredes. José Aguiar (Polvo)

Este livro segue uma estrutura clássica de hipodiegese, isto é, de existirem histórias dentro de uma outra história, de maneira que tanto poderíamos encarar Coisas de adornar paredes como a colecção dos oito breves contos que ocupam a parte de leão do volume, e procuremos entender como é que se coordenam tematicamente entre si, como antes compreender o esforço de Chico, protagonista na narrativa enquadradora, em os construir, e ver cada um deles como expressão e peça do pretende reflectir sobre ele mesmo. Uma vez que surge a oportunidade de ver uma discussão metatextual sobre os “contos” pelas personagens, o seu autor, Chico, e seus interlocutores, Ana e Caio, os sentidos previstos ou potenciais dos primeiros acabam por ser tornar tão explícitos como ambíguos no nível superior. (Mais)

Os contos em si centram-se sempre em histórias cujo eixo se encontra num ou vários objectos que “adornam paredes”: uma estatueta da Virgem Maria, uma colecção de retratos fotográficos emoldurados antigos, um calendário de pin-up com algumas décadas, uma cópia barata em revelo da Última ceia de Leonardo, azulejos industriais. Estes objectos consubstanciam-se enquanto obsessão de desejo, pistas de identidade e memória, interlocutores quase-fantásticos, ou até nexos de passagem a uma outra realidade, quer do ponto de vista existencial quer literalmente. Numa outra ocasião, havíamos citado o conceito de Sherry Turkle dos “objectos evocativos”, os quais como que providenciam um espaço mental ou ponto de encontro entre a emoção e o intelecto, e com efeito poderíamos ler os efeitos destes objectos nas personagens respectivas como envolvendo-os de uma forma holística.

Para mais, tendo em conta que Chico e os colegas trabalham num “cemitério de azulejos” - uma empresa que recupera azulejos ornamentais, industriais ou artesanais, e os revende - , não será de estranhar que estes mesmos objectos se tornem o supra-símbolo de toda a empreitada. Não apenas enquanto objectos passíveis de individualidade e singularidade, como de coordenação e encaixe com outros em padrões maiores, um certo grau de manipulação, e espelhamento das funções dos personagens.

A esmagadora maioria destes contos partilha outras características, algumas das quais discutidas mesmo pelo seu autor, Chico, e os amigos a quem os mostra: um permanente sentimento de culpa e transcendência do pecado, herança da matriz Católica, uma certa negatividade ou incompreensão nas relações amorosas, um isolamento e alienação progressivos, e até, na maioria dos casos, uma associação ao género do crime, assinalando dimensões trágicas. Mas esta matéria é depois contrastada de forma quase radical com a narrativa enquadradora (que, na verdade, apenas começa “depois” do primeiro conto, criando uma ilusão e uma navegação da leitura curiosa), que é feita quase tão-somente de cenas de diálogos, sem acção, de um quotidiano o mais trivial possível. Mesmo que haja uma progressiva introdução de uma pequena “crise” - não apenas o próprio processo da escrita, das dificuldades editoriais, etc., mas uma parte amorosa -, ela nunca atinge os mesmos paroxismos que os contos internos.

Se existe uma manutenção e coerência estilística da assinatura de José Aguiar, com as suas figuras minimais e um uso de aguadas de grande competência, existem igualmente alguns contrastes entre os “contos” e o “quadro”, nomeadamente a nível da pormenorização e das estratégias compositivas, bem mais variadas e livres nas histórias de Chico. Tendo em conta que tudo nos leva a crer que Chico é um autor literário, a “tradução visual” a que temos acesso não é diegética, pertencendo antes a um nível ainda superior à própria narrativa de Chico, associando-a a um plano hipotético, externo à narrativa, e que pertence ao mega-narrador da banda desenhada.

Livro escorreito e simples, então, é nessas negociações de níveis que se torna uma leitura menos comum.

Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

1 comentário:

JoseFreitas disse...

Inusitadamente, no meu caso, já que são conhecidos os meus gostos normalmente bem mais "comerciais", achei um dos melhores lançamentos do ano passado.

Pena só duas coisas: 1) nota-se uma total falta de trabalho editorial, no sentido de que a editora poderia ter feito pequenas adaptações do texto, trocando p.ex. um termo brasileiro pouco conhecido, por outro que os portugueses estejam habituados a ouvir, ou colocando aqui ou ali uma nota explicativa; ou neste caso específico, de uma história que no fundo se poderia passar em muitos outros lugares que não o Brasil, adaptando o texto pura e simplesmente para português de Portugal. E 2) o formato, talvez um pouco pequeno demais (embora aqui a opção seja mais compreensível, dada a pequena tiragem e os custos que isso acarreta).