30 de maio de 2017

Jardim de Inverno. Renaud Dillies e Grazia La Padula (Kingpin)

Não deixa de ser “natural” que a Kingpin tenha encontrado neste projecto a continuação de uma linha editorial que procura expandir. Não havendo dúvida de que o critério eleitor nessa integração tenha sido a prestação gráfica da autora italiana, acreditamos que terá a ver com certas afinidades estilísticas com Tony Sandoval, cujo recente Nocturno também foi publicado há recente pela mesma casa, e cuja colaboração também trouxe a lume Les echos invisibles (que imaginamos ser desejado pela editora). O que une La Padula e Sandoval é múltiplo: uma linha de contorno semi-livre e gestual, uma figuração entre o anatómico e o cute-grotesco dos cabeçudos do século XVIII, que já havíamos debatido a propósito de Phoenix, e uma aplicação de cores suaves mas exactas. La Padula, todavia, parece herdar outras características ligeiramente diferentes. Ainda que haja igualmente uma preocupação pelo acrescentar de pormenores nos cenários cheios, parece-nos ser mais devedora de um Nicolas de Crécy, ainda que sem atingir a mesma intensidade, verve e alucinação. Mas os cenários urbanos, abertos, imensos, distorcidos de acordo com boas práticas visuais, fazem-nos lembrar as vinhetas cheias de Le Bibendum celeste ou Journal d’un fantôme. É possível que tal comparação seja desequilibrada, em detrimento para com Padula, mas há um mesmo esforço, desejo e prestação. (Mais)

O jardim de Inverno é menos impressivo no que diz respeito à sua narrativa. O argumentista, Renaud Dillies, ele também artista, sobretudo de banda desenhada infanto-juvenil animalière, parece ser cultor de um repertório feito de tramas impressivas, emocionais, em torno de pequenas relações imediatas entre uma pequena constelação de personagens. A intriga deste livro roda em torno de um jovem homem, que parece paradoxalmente entalado entre uma vida pacata e indiferente em relação à vida que o rodeia, desde o emprego, a vizinhança e a memória distante dos pais, e com uma relação amorosa sólida com a namorada. Um mero acaso leva-o a confrontar-se com o vizinho do andar de cima, um velho abandonado, que o confunde com o filho e o lança assim numa pequena tempestade de emoções, forçado a pensar sobre a sua própria vida de uma maneira que não desejaria. Esse confronto aumenta de intensidade até quase uma letargia, seguida da mais que expectável “libertação”, seguida de toda uma série de resoluções positivas e um final feliz e esperançoso. Feel good movie, se é que há um.

Contudo, é uma estrutura narrativa que se esgota nessa mesma prestação. Não há propriamente uma segunda dimensão que problematizasse essa mesma estrutura, essas relações ou resolvesse as contradições internas. Afinal, Sam, que trabalha num bar de jazz e tem uma namorada, para todos os efeitos, no seio desta máquina diegética, “desejável”, não contém os ingredientes que o tornariam o sorumbático que é. A crise que o afasta dos pais não surge como um trauma irresolúvel, mas tão-somente uma birra ou, pior, uma indiferença graças ao conforto encontrado na cidade. As putativas backstories do vizinho e da namorada nunca são desenvolvidas o suficiente que as torne personagens de corpo e espírito inteiro que as jogasse de modo mais articulado com o protagonista, reduzindo-as a funções actanciais dele mesmo.


O resultado é um livro de temática algo delicodoce, de leitura linear e simples, cujo prazer está de facto na descoberta parcimoniosa dos cenários e expressividade instiladas por La Padula, que trazem maior carisma e personalidade lá, onde na narrativa não vivem. 

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