23 de dezembro de 2013

Š! nos. 14 e 15 (kuš!)



Apesar de a esmagadora maioria das pessoas - e não nos excluímos desse grupo - atentar sobretudo para os grandes pólos de produção de banda desenhada (Estados Unidos, França e Japão), e abrir uma única excepção em relação ao seu próprio país, se o fizerem, muitos outros leitores estarão alertas para o facto de que existem muitos outros centros onde ou existe uma sólida tradição de banda desenhada que continua a medrar (Espanha, Alemanha, Itália, Bélgica, Argentina, etc.), ou existem novos agentes que torna a cena contemporânea extremamente viva (Finlândia, Sérvia, Eslovénia, Canadá, Hong Kong, Coreia). Além disso, graças a exposições, amizades ou à “sociedade de informação”; também se está ciente de que existem sempre algumas “cenas” em quase todos os países, ora com contornos diferentes em termos de qualidade colectiva, ora por vezes concentrando-se com um autor ou autora fora do comum. Por isso, não é sem surpresa que nos cruzamos com uma antologia de grande qualidade, verdadeiramente internacional - à escala global - oriunda de um país relativamente arredado daquela atenção de que falámos: a Letónia. A kuš! é uma plataforma cujos editores são David Schilter e Sanita Muižniece, e que publica presentemente, pelo menos, duas séries de projectos: por um lado, a mini-kuš!, que é uma pequena publicação monográfica, a que pertencia um título de Amanda Baeza, já discutido (e que já conta com mais de 20 títulos), por outro, esta antologia, Š!, que agrega nas suas páginas autores vindos das mais diversas paragens do mundo. A antologia é temática, sendo estes últimos números dedicados ao desporto (14) e aos gatos (15).

Haviam começado com uma revista em 2007, a kuš!, que entretanto suspenderam, para conduzirem os seus esforços ao crescimento da antologia, iniciada em 2008 com menos de 50 páginas, e cujos últimos números (numa média de 3 por ano) atingem as 164 páginas. Quer uma quer a outra são em formato A6, associando-se, como havíamos dito a propósito do livro de Baeza, às colecções patte de mouche e Quadradinho, etc. Trata-se, portanto, de um formatinho que tem implicações de uma tradição, mas ao mesmo tempo de opção política e de unidade de leitura - menos dada à espectacularidade e “normatividade” dos géneros de banda desenhada e envolvendo-se com uma certa ideia de intimidade, alternativo, etc. - e, claro, opções económicas.

A diversidade dos autores destas publicações atingem todas as dimensões possíveis: proveniência geográfica, estilos gráficos e narrativos, experiência e idade, propósitos de género, reinvenção ou experimentalismo, e até mesmo, um termo mais ambíguo e vago, as suas “eficácias”. Por este último termo quereríamos dar conta de uma impressão muito subjectiva, e que seguramente basculará conforme os leitores e terá pouco sustento em qualquer  tipo de argumentação. No entanto, se nos recordarmos de algo dito há algum tempo, de associar as antologia a florilégios, a escolhas de flores, sobressairá o facto de que haverá sempre uma flutuação então de gostos, efeitos, ocasiões, etc. Essas palavras foram ditas a propósito de Kramer’s Ergot, que é precisamente o título que se nos ocorreu ao depararmo-nos com a kuš!. Mas onde essa outra antologia se centrava em autores “perto de casa”, encontraremos aqui autores que vêm desde o Brasil à China, num escopo muito mais aberto, e que não perde de forma alguma o rigor a uma certa “novidade”.

É verdade que se poderá dizer que a esmagadora maioria dos autores aqui concentrados são “alternativos”, naquela ideia de que são cultores de uma banda desenhada menos dada aos estilos genéricos e comerciais mais famosos, mas há uma  panóplia suficientemente alargada para nos impedir de criar outro tipo de descritivos que lhes servissem a todos. Se encontramos autores com estilos a que se poderiam chamar de “infantis”, empregando animais antropomorfizados, por exemplo (Anna Vaivare, John Broadley, L. L. de Mars), outros há que são extremamente estilizados e quase escapam do entendimento clássico da “forma bd” (Fredox, Dace Sietina, Warren Craghead III), ao passo que alguns outros utilizam até linguagens ou abordagens particularmente convencionais (Mikus Duncis, Lat Tat Tat Wing, Conor Stechschulte, Paul Paetzel, Emmi Valve), ainda que se permitam explorar territórios temáticos, tratamentos narrativos e de representação mais criativos que o usual, claro.

Haverá igualmente autores que serão mais conhecidos deste ou daquele público -o que dissemos da atenção particular para cada país só se pautará individualmente - e outros menos, mas não há uma atribuição a priori de mais peso aos autores que poderiam ser mais conhecidos do que os outros (através das capas, por exemplo, ou a organização interna editorial). Da parte que nos toca, encontraremos nomes muito familiares como Warren Craghead III, Pedro Franz, Amanda Baeza, Fredox, Edie Fake, Michael Deforge, logo à partida criando uma ideia especial desta tal “comunidade” de artistas bem alargada. Apesar do espartilho temático, que leva a que os autores criem trabalhos originais, e não material previamente publicado, não há autores a “encher chouriço”, até mesmo no caso de ilustrações soltas, em série, ou histórias de apenas duas páginas. Todas elas, inscrevam-se melhor ou pior nas pesquisas pessoais dos autores, criem pequenas novelas domésticas, confissões autobiográficas, explorações de géneros espectaculares, ou se entreguem a um quase abandono da matéria expressiva possível do embate entre as palavras e as imagens, irão sempre responder ao tema de modos bastante interessantes (levando a imaginar um processo editorial relativamente próximo e intenso entre editores e autores). É nesse aspecto de coesão interna apesar das diferenças substanciais apontadas que nos leva a comparar novamente este gesto com o de Kramer’s Ergot, mas onde a Š! acaba por ganhar uma vantagem de coerência, pertinência e até beleza. Sem se entregar, porém, ao exercício megalómano dos formatos gigantes, mas antes operando a uma escala mais humilde, mas por isso mesmo mais sustentável e duradoura seguramente. Tornando-a, por fim, numa das mais frescas, abertas e estimulantes antologias que nos foi dada a ver nos últimos tempos.
Nota final: agradecimentos à editora, pelo envio de um dos exemplares.

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