30 de setembro de 2006

Salazar. Agora, na hora da sua morte. João Paulo Cotrim e Miguel Rocha (Parceria A. M. Pereira)


Há uma frase neste livro, escrita por uma sua personagem, que reza assim: “recordar é envelhecer mais”. Foi João Paulo Cotrim quem a colheu e a pôs na boca da personagem, e Miguel Rocha quem a dactilografou e desenhou os arabescos desenhos. Todos mentem. O acto da memória, ao ser colocada no papel – ou qualquer outro suporte tangível e que se deseja perene, na forma de texto –, é um crime de traição à própria vida, ao modo de vida, da memória. Se se a escreve para a poupar ao aniquilamento, por estar presa à existência humana, cuja condição é a sua própria morte, esse mesmo acto de as escrever (e desenhar) fixa-as numa fórmula, cristaliza-as, torna-as documento, ou mais e pior, em monumento, tornando mais difícil a sua real vivência e revisitação, precisamente enquanto memória humana. Mas minto eu também. (Mais) 

Ou talvez não. Talvez o enigma e a maravilha da memória seja essa possibilidade indelével de ela servir a propósitos que parecem improváveis, contraditórios, impossíveis de serem servidos por ela, mas serem-no, mesmo assim. A voz que mais atravessa o livro é a do próprio António de Oliveira Salazar, falando-nos. Do que fez, do que gostaria de ter feito, dos seus propósitos. Esta não é uma obra de acusação primária que passasse apenas a bílis – que não nos pertence – sobre o passado. Mas nem por sombras se pense que Cotrim e Rocha estão a dar espaço às desculpas e justificações de Salazar. Aparente e verbalmente, são desculpas e justificações que se apresentam, mas elas apenas aprofundam ainda mais o facto de uma integridade de valor ser o caruncho de um país. José Saramago tem um conto, um dos seus primeiros, intitulado Cadeira (encontrado no volume Objecto Quase), no qual o bicho-carpinteiro é tornado o herói, até ali anónimo e invisível, do fim do regime, por ter corroído o assento do ditador. Um conto de humor. Aqui, o caruncho é já a própria existência deste Salazar, salazarento, como soe dizer-se, como se se tratasse de uma maleita biológica.

Este livro é um livro que é sobre a memória, a morte, e o envelhecimento. É uma obra funérea, sobre um homem que sempre na sua vida foi um funeral em si mesmo, sobretudo para a vida. “Nasceu velho”, este Salazar, não é apenas um axioma político, nem uma mera expressão, é uma verdade humana que neste livro dos autores citados, e que se intitula Salazar, Agora, na hora da sua morte, assume direitos de cidadania, de personagem e de imagem perene: o “menino António” - recordando as terríveis discussões que misturam história, emoções e propósitos menos nítidos, como o “menino Hitler”, que era menino-monstro - nunca teve infância: era menino-velho. “Só no meio das flores e das crianças me sinto bem”, diz ele na grande entrevista a Christine Garnier (com quem os autores recusam ter tido qualquer relação, outro gesto subtil negando a humanidade ou o defeso em Salazar, sem histerias nem acusações pacóvias), que publicaria As Minhas Férias Com Salazar/Vacances avec Salazar em 1952. Talvez por não partilhar quaisquer qualidades com elas... Só se torna menino quando finalmente brinca no Terreiro do Paço, uma das imagens-bandeira do livro.

João Paulo Cotrim apresenta aqui talvez a sua obra mais sofrida (não disse sofrível, digo sofrida, de mágoa, de dor). O seu percurso como um dos mais importantes (aparte outras funções, indesmentíveis) escritores de banda desenhada portugueses, por mais subvalorizado que seja pela “comunidade cega” dos leitores de “bd”, é heteróclito e mesmo inconstante (uso este vocábulo despido do seu valor moral, somente de caracterização criativa), mas jamais inerte em si mesmo, nas obras, nem indiferente. Mesmo que empreste a sua voz a outras vozes (as de Woody Allen, as de Al-Mutamid, ou da Serra de Sintra, por exemplo), a sua voz está. Aqui, essa voz apaga-se sob o peso do cortejo negro, mas está ainda mais. A dispersão de vozes internas – presente também na escolha gráfica em textos diferenciados – mostra como uma aparente diversidade representa somente a convergência de uma camada de dor que deitou a sua sombra sobre o país durante décadas. Esquecemo-nos? Pessoalmente, nunca me lembrei, mas não quero que se apague da minha memória, e estas vozes ressoam mais forte agora a sua presença de fantasmas, nada, nada alegóricos. (Dir-me-ão que estas são colagens de textos, de documentos, do diário de Salazar, que há apenas uma verdade provinda de factos e que essa voz está do outro lado do tapume. E em verdade vos digo que nada sabeis da verdade na arte).

Miguel Rocha tinha-se mostrado espraiado nas cores. Que faz como passo seguinte? Nega a existência de passos “seguintes”, só os existindo “por dentro” e mergulha em negros e cinzentos e ocres que pertencem à tarja negra que percorre o livro. As suas personagens continuam com um fácies que parece ser feito de cera derretida, aqui ganhando outros contornos interpretativos, tétricos necessariamente, de títeres mas sem que lhes seja sonegada a culpa que os reveste, de cadáveres, não “adiados” mas “já” em vida. O uso de novas técnicas gráficas – ou pelo menos onde as opções tecnológicas são mais nítidas (fotografia, montagem por computador, fotomontagem, colagem, jogos de letragem, oscilando entre as caligrafias e a mecanização, uma catalogação imensa de tipologias de composição de página) – não alterando o valor do seu gesto de desenho, vai revelando a plasticidade e o modo como Miguel Rocha se plasma a cada um dos textos que deseja apresentar. Uma capacidade de adequação como poucas, acabada em si mesma, completa no respeito para com a sua voz.

Falei há pouco de imagens-bandeira. São propositadas: imagens que ocupam duas páginas, sem a espectacularidade das “splash pages” do mainstream norte-americano, naturalmente, mas não menos contundentes. Um Portugal transformado em talhão agrícola onde Salazares, em azáfama, o cultivam e querem fazer medrar (mas apenas enmerdando-o ainda mais, revoltando o estrume de maneira improdutiva). As explosões de materiais documentais no que parecem cascatas de associações de memória e que vogam em torno do homem. A breve exposição do mundo de Duarte Pacheco, num maravilhoso diaporama da sua “obra feita” (desde então, ou de muito antes, obsessão dos nossos politiqueiros e patrinhoteiros). E as repetidas imagens das cadeiras (aqui exemplificada), cadeiras em reunião de família, em retrato da despossessão, do esvaziamento, da ausência, da solidão... tudo criado pela presença de Salazar. Como se houvesse um jogo de cadeiras sem música nem pessoas, constituído somente pela expectativa de as preencher.

Existem ecos gráficos que se vão repercutindo pela obra. A 4 de Julho de 1937 falhará o atentado – o tiranicínio desejado por uma esquerda, e silenciosamente por mais – mas a explosão dá-se. Essa explosão, enquanto signo, em Salazar. Agora, na hora da sua morte repercute-se pelas páginas anteriores e posteriores, revestindo-se de outros sentidos, de outros valores, fazendo-os estreitar-se a todos. A morte ronda e existe em todas as instâncias da vida.

A senda de Salazar, enquanto livro, não é absolutamente solitária, se bem que não populosa. A História de Lisboa de Oliveira Marques e Filipe Abranches (onde paira o gesto de Cotrim também) é o seu irmão imediato: também essa é uma obra que olha a História mas sem vontade de ser compêndio ou manual, também ela feita de impressões e intensidades, de composição de fragmentos aparentemente dispersos mas que seguem um fio vermelho que nos é – ou foi, antes da obra – invisível, também ela uma obra que rasga os véus mitológicos que, enquanto portugueses, “nos contamos uns aos outros” e nos oferta uma mágoa existencial que sempre vibrou, baixo contínuo, na nossa História. Eduardo Lourenço como lição. “Os povos antigos, ou são tristes ou são cínicos; a nós, portugueses, coube ser tristes. É frase lapidar e assim descarto o cinismo que me assacam.” Desta feita, o próprio Salazar. Esta aproximação de Salazar e Lourenço não é de todo displicente, pois ambos tomaram o pulso da nação, de modos diferentes, sem dúvida, o segundo pelo pessimismo construindo, o primeiro pelo optimismo destruindo. Mais, que me perdoe o Professor Lourenço, ambos têm um perfil físico idêntico, que Miguel Rocha faz ecoar também nos rostos das várias personagens da História, numa das sequências do livro. Aproximando-os, salientam-se as diferenças. É como se um rosto dissesse tudo, é como se um rosto não dissesse nada.

Em Portugal, país onde as mãos dadas entre a História e a banda desenhada nascem sobretudo de adaptações superficiais, de encómios e hagiografias, de resumo escolar, de mitomania incessante, ou pior, de inanidades intelectuais (nem sequer podemos dizer termos algo parecido com um Larry Gonick, por exemplo), são obras destas (poucas, tão poucas) que, não olhando as escolas, são lição mais profunda. Aí, nesse território de mergulho frio num dorido passado, eis Filipe Hernandéz Cava, irmão gémeo de Cotrim.

Um livro destes só é belo se criar ódio e inveja em nós; o primeiro ao esquecimento, sobre o qual mentem, pois negam-no pela própria existência deste Salazar, a segunda aos autores, por exceder as expectativas, que nós, meros e pobres leitores, teimamos em criar, por não sabermos que os autores vão por caminhos que não podemos seguir. Ou se sim, só com os olhos. Obviamente, sigamo-los.
(Nota: agradecimentos ao CNBDI, através do qual nos foi ofertado o exemplar)Posted by Picasa

12 comentários:

René Alan disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
René Alan disse...

Numa primeira observação vem-me uma imagem de coragem por parte dos autores, em criar tal obra, mas tinha que a ler/ver para poder dizer e pensar mais... fiquei curioso...

Geraldes Lino disse...

Crítica notável: pelo brilhantismo literário que percorre o texto, pela cultura que, subjacente,justifica os pontos de vista, e pela inteligente análise final dos autores Cotrim, argumentista, e Rocha, plasmador de imagens em permanente superação.

maurobindo disse...

Interessante notar como por vezes, e muito subtilmente, uma obra pode conter aquela barreira quase que invisível aos olhos mais leigos, mas que uma profunda e adequada análise pode consertar. Sabe sempre bem vir a este espaço limpar "as vistas". Fiquei muito interessado em ler esta obra. Obrigado!

Flashfinger disse...

São curiosas essas palavras, Mauro, que agradeço, obviamente, mas que não deixam de ser perigosas... A crítica só existe para servir a obra, e não o contrário, isto é, é à existência deste maravilhoso livro que se deve a possibilidade de eu me pronunciar sobre ele.
Se isso levar a que existam mais leitores, é bom; se esses leitores discutirem (mesmo aqui), melhor. Mas julgo que as barreiras não se devem a sermos leigos ou a outro defeito de, digamos, "educação"... Tem somente que ver com mantermo-nos abertos à surpresa, e lermos com tudo: cabeça, coração e estômago...
Abraços!

maurobindo disse...

Concordo plenamente com o que dizes. No seu todo, somente queria dizer que com análises deste tipo, a forma de abordar a leitura pode extrapolar o simples facto de lermos uma determinada obra apenas com a cabeça, que é o a maioria das pessoas faz, se assim o posso afirmar.

Em relação à barreira invisível, esta muitas das vezes existe nos bons livros e penso ser isso que por vezes distingue um bom livro. O facto de podermos apreciar as entrelinhas que lá estão e que tantas vezes passam despercebidas. Apenas isso.

Grande abraço.

Luís Graça disse...

E o Salazar lá limpou os prémios na Amadora!

Flashfinger disse...

Apesar de tudo, ainda bem, e os meus parabéns aos autores...

Anónimo disse...

Uma análise crítica muito bem delineada.
O Livro merece-a.
Luís Pinto

Flashfinger disse...

Obrigado pelas suas/tuas palavras... Hoje foi o lançamento "oficial" do livro no Salão Nobre do Ministério das Finanças, com uma apresentação do professor Oliveira Martins... Uma dignidade grande a um gesto grande, que vai confirmando "um" valor do livro. Agora esperemos que a massa de bedófilos abra os olhos e as mentes...
Abraços

mch disse...

Bravo pela chamada de atenção. É uma boa crítica em sintonia com o álbum mas talvez demasiado apegado ao mesmo e sem a distÂncia e comparação com a época. No fundo, falta-nos a todos os conceitos para classificar o homem que não é fascista, nem semi-democrata- cristão porque é português e nós também somos. Veja lá algumas expressões que usa. Diz-se "Tiranicídio" e não "tiranocínio"

Flashfinger disse...

O erro crasso de português será corrigido, obrigado. Quanto ao facto do meu texto ser demasiado agarrado ao livro, também agradeço. Não é meu objectivo fazer nem História, nem sociologia, nem falar do livro enquanto instrumento da "Verdade" ou como complemento didáctico ou pedagógico para os saberes disciplinares; procuro fazer, de facto, crítica do livro de banda desenhada - nada mais.
Obrigado e abraço!
Não concordando com as mesmas estratégias - já que não me vejo "português" da mesma maneira - aconselho a visitarem os blogs de MCH, a quem agradeço pela terceira vez por criar um link para esta "posta" (nem mais!).