21 de agosto de 2017

Platinum End; vols 01 e 02. Tsugumi Ohba e Takeshi Obata (Devir)


De certa forma, podemos ler Platinum End como uma espécie de reverso de Death Note. Uma vez que um certo grau de maniqueísmo é uma assinatura dos autores, não nos admira que aqui haja uma transformação para o pólo “contrário” à famosa saga anterior. Em vez dos demónios ou deuses da morte, temos agora hierarquias de anjos em torno de (um) deus. Em vez da feiúra dos primeiros, temos a beleza etérea dos segundos (e que devem algo da sua forma física às personagens fantásticas do Cremaster de Matthew Barney). O seguimento mais ou menos próximo de vários sistemas de angeologia são muito secundários, tirando algumas referências básicas, já que a própria “moralidade” destas criaturas é tão matizada ou até indiferente como o era nos shinigami de Death Note: não são “más” nem “boas”, simplesmente têm papéis e tarefas a cumprir. E em vez de um jovem (Light Yagami) que ganha um artefacto de poderes sobrenaturais (um caderno escolar) interessado numa ideia de justiça que passa pela sua decisão pessoal em matar outras pessoas – ou seja, uma acção moralmente repreensível de acordo com os melhores princípios societais –, sublinhando um ego que vai crescendo, no caso de Platinum End seguimos outro jovem (Mirai Kakehashi) que ganha um artefacto de poderes sobrenaturais (as “asas” e as “espadas”), por ter sido seleccionado, mas que prefere a inacção do que interferir na vontade pessoal dos outros, mesmo que isso lhe custe a sua própria “vitória”. (Mais) 

18 de agosto de 2017

Monstress. Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência)

Monstress é uma bateria ou amálgama de géneros que, não tendo, possivelmente, um elemento propriamente original, produz uma combinação equilibrada e curiosa. Steampunk, fantasia épica e negra, histórias de monstros, Bildungsroman, ficção científica, ficção feminista, são os tijolos que montam a sua estrutura, sendo a argamassa uma pesquisa sobre a individualidade perante a cruel e abjecta injustiça da escravatura e do racismo provocadas pela guerra. Mas ao mesmo tempo espraia-se uma história centrada na senda de uma protagonista em torno de respostas sobre a sua família, que poderá ter consequências para o seu mundo em geral. (Mais)

17 de agosto de 2017

A casa. Paco Roca (Levoir)

Graças aos esforços da Levoir, a entrada de vários títulos da banda desenhada espanhola contemporânea no mercado português é uma realidade. Ainda que não haja, aparentemente, uma política concertada e ritmada dessa mesma entrada, a colecção das Novelas Gráficas, que vai na sua terceira fornada (à qual voltaremos), e volumes soltos, como é este caso, assegura essa oferta (corroborada, pelo menos, pela Arte de Autor; mais, o mesmo se poderia dizer da banda desenhada brasileira, pelas mãos da Polvo, por exemplo, e de nenhuma outra editora, maior ou menor que estas). Seria, mais uma vez, discutível qual o espectro dessa mesma oferta dada a pluralidade de produção do nosso país vizinho, que neste caso não se pode chamar irmão dado o largo desconhecimento do público geral do que tem surgido em Espanha (e nem encetaremos a relação contrária), mas estamos em crer que o foco da Levoir é, em si mesmo, coerente: autores interessados em discursos contemporâneos, autorais, muits vezes de narrativas pessoais e quotidianas, e menos interessados em géneros clássicos ou mesmo espectaculares, e atreitos a formas narrativas convencionais e acessíveis a um público alargado, não necessariamente fãs de “bd de género”, mas de toda uma sorte de literatura (o que incluirá outras formas mediáticas). (Mais)

14 de agosto de 2017

Miracleman. A Idade de Ouro. Neil Gaiman e Mark Buckingham (G. Floy)

Antes de mais, queríamos esclarecer a declaração de intenções, uma vez que, tendo sido os tradutores deste volume, somos parte interessada no projecto.

Dito isto, e na continuidade de alguns projectos da editora, que nos tem disponibilizado alguns dos melhores títulos do mainstream norte-americano contemporâneo (Saga, Fatale, Southern Bastards), e depois de uma edição com todo o run de Alan Moore (a que corresponderiam 3 livros), eis que se publica um volume com todo [v. comentários] o material criado e publicado na época por Neil Gaiman e Mark Buckingham, herdeiros imediatos do anterior autor, e seus múltiplos colaboradores artísticos. Como é consabido, o Miracleman, nas mãos de Moore et al., transformar-se-ia no principal cadinho e laboratório de cruzamentos de muitas das noções daquele autor britânico que tanto seriam influentes no seu próprio trabalho no território dos super-heróis como depois em todo este género, e a que se viria a dar muitos nomes, desde “desconstrutivismo”, a “pós-moderno”, até mesmo “maturidade” ou “revisionismo”. Não é que algum desses termos esteja errado, mas tampouco serão completos. Seja como for, é inegável que se encontrariam aí muitos dos elementos que depois se tornariam inevitáveis na esmagadora maioria da produção deste género. (Mais)

2 de agosto de 2017

Punk Comix/Corta-e-Cola. Marcos Farrajota/Afonso Cortez (Chili Com Carne/Thisco)


Parafraseando Frank Zappa a propósito do jazz, o “punk não está morto, mas já cheira um bocado mal”. Ou talvez não. Este projecto já estaria anunciado há algum tempo, com alguns sinais aqui e ali, por blogs, conversas e encontros de cariz de vária natureza, do mais académico ao mais descontraído, e com associações metastásicas por linhas paralelas que apenas o tempo dirá se se complementam, se se opõem ou simplesmente se atropelam. Seja como for, os esforços gémeos de Marcos Farrajota e de Afonso Cortez encontram aqui um caminho que se sustenta mutuamente num split-book, em que o primeiro ausculta as relações da noção cultural do “punk” com a banda desenhada em Portugal, e o segundo faz uma história variada do movimento musical entre nós, nos vinte anos que distam de 1978 a 1998. Por razões que têm a ver com a nossa própria especialidade e conhecimentos, falaremos apenas da “metade” de Farrajota, estando em crer que o livro de Cortez esteja na excelente linha de produções a que a editora tem presidido com o conjunto de ensaios sócio-culturais em torno de fenómenos musicais de Rui Eduardo Paes. (Aborrece-nos apenas recordar que o único vinil que tínhamos desta colheita, e que aparece citado, foi quebrado contra o chão por razões sem qualquer importância...) (Mais)

27 de julho de 2017

O Homem que passeia. Jiro Taniguchi (Devir)

Em boa-hora é relançado este título junto ao público português, numa nova tradução (e novo título), e num formato melhorado, ou pelo menos, individualizado, do que a anterior edição da própria Devir através da colecção Série Ouro com distribuição do Correio da Manhã, há mais de dez anos. Todavia, precisamente por termos feito uma leitura, que esperamos ainda pertinente, da mesma obra então, a esse texto remetemos, deixando aqui considerações de outra natureza. 

O objecto é em si tem outras diferenças substanciais. Materialmente falando, tem uma capa mais atraente e que se prevê ser um projecto gráfico sustentado na nova colecção de mangá da editora, com trabalhos de maior maturidade e para um público mais generalista. Poder-se-ia ter imaginado numa encadernação mais robusta, próxima da colecção Écritures, da Casterman (com a qual partilha o mesmíssimo formato), mas haverá razões substanciais para esta opção. Em termos de conteúdo, porém, a escolha da Devir é bastante feliz. Em primeiro lugar, não temos aqui uma edição que reconstitua as páginas numa ordem de leitura ocidental e em que cada vinheta se mantém idêntica mas numa posição relativa da prancha invertida, e muito menos as antigas edições “flipped”, em que pura e simplesmente se apresentava uma inversão de toda a prancha. É uma edição tal qual a original japonesa, permitindo esta magia visual tão própria da banda desenhada e passível de ser desfrutada pelos leitores não-japoneses (de resto, prática da casa). (Mais)

24 de julho de 2017

Adeus & Hello.


A partir de hoje, o Lerbd não continuará a sua actividade nos mesmos moldes. Neste espaço, escreveremos quase exclusivamente sobre material que seja publicado em língua portuguesa, nacional, brasileira ou traduzida, de banda desenhada e ilustração, ou outros assuntos que tenham lugar entre nós. Mas a esmagadora maioria das publicações estrangeiras a que vamos tendo acesso, inclusive ensaística e académica, será canalizada para as várias plataformas com as quais colaboramos ou para o novo blog em língua inglesa, que aqui anunciamos. O mesmo ritmo manter-se-á, possivelmente, mas repartido em vários locais.
Mais uma vez agradeço aos leitores pacientes e interessados.
O Yellow Fast & Crumble está já disponível.

Veículo. D. W. Ribatski (Roax Press)


Este pequeno pró-zine de Ribatski não é seguramente um livro que coloque o nome do autor num espaço de grande visibilidade junto a um público mais alargado e convencional, por três razões imediatas: porque o autor tem outros projectos que asseguram essa posição, por este ser um objecto de menor circulação (uma publicação de 24 páginas, um panfleto) e pela sua matéria ser controversa, no seu sentido etimológico: isto é, a de ir numa”direcção contrária” àquela que é habitual.

Aparentemente, a narrativa parece focar num episódio algo estranho na vida banal de um empregado de escritório. Tímido, solitário e trivial na sua vida diária, Jonas vê a sua vida subitamente invadida por uma mulher que não conhece, a qual se posta no seu apartamento, nua, e que de certa forma se predispõe a que ele beba dos seus seios um líquido que jorra sem cessar, o qual ele compara com mel. Não há cenas de relações sexuais, mas de nudez, mímica de mamar como uma criança, e conflitos com outras personagens causadas pela confissão de Jonas desta situação. Todas as perguntas que adviriam deste “mistério” são, no fundo, goradas. (Mais)

11 de julho de 2017

Paiment accepté. Ugo Bienvenu (Denoël Graphic)

“Escolher e isolar constituintes do real, de lhes dar, através de uma estrutura, um sentido, um novo dia.” Esta é umas “confissões de arte” do realizador Bernet, o modo como ele explicita a sua função e visão dos filmes que faz e quer ainda fazer. Independentemente do género, da inscrição temporal, das circunstancialidades de produção do filme, o cerne está, portanto, nestes “constituintes do real”. Paiment accepté é uma espécie de ensaio sobre que elementos se preservam mesmo no meio da perda de controle de todos os meios de produção. (Mais)

10 de julho de 2017

Clube Mediterrâneo. J. P. Mésseder, A. Biscaia., J. Monteiro (Editora dos Tipos/Xerefé)

Imaginemos. Daqui a quarenta, cinquenta anos, olharemos para trás e assinalar-se-á o “Dia do Holocausto do Mediterrâneo”. Talvez a palavra seja outra, uma vez que se pretendem exclusividades mesmo na hora do sofrimento, da morte e da barbárie humana, lançando a ideia de escândalo pela comparação, excusando-se o mesmo peso de responsabilidades e invertendo os factores de vitimização. Far-se-ão monumentos, documentários, filmes ficcionados, obras de literatura, palestras, discussões, sobre uma das maiores catástrofes (esperemos) do início do século XXI, já que também temos direito aos nossos próprios horrores. E então fantasiaremos... “Se tivesse vivido na altura....”, “Se pudesse, tinha feito...”, “Como é que não se agiu a tempo?”. E sentir-nos-emos melhor, e continuaremos as nossas vidas. (Mais)