6 de fevereiro de 2016

La maison aux insectes. Kazuo Umezu (Le Lézard Noir)

É uma verdade de La Palisse que a banda desenhada japonesa se apresenta de uma forma mais estratificada do que outras, no que diz respeito a géneros, públicos e circulações, até pela sua produção massiva, o que torna mais fácil, até certo ponto, análises por atacado. O que não invalidade a existência de cruzamentos, contaminações e problemas de generalização com essas mesmas leituras. Contudo, elas ajudam, numa primeira instância, a uma primeira abordagem. Ora, é nesse sentido que podemos afirmar que se existe uma grande oferta de títulos de horror, é Kazuo Umezu, famosamente conhecido como “Kazz”, o seu grande primeiro cultor e figura. (Mais) 

4 de fevereiro de 2016

Colaboração no The Comics Alternative: Disposession & Transforming Anthony Trollope, de Simon Grennan et al

De quando em quando, surgem livros que se tornam enormes desafios a muitas das categorias que alimentamos numa visão tradicional da banda desenhada. Dispossession é um desses livros, o qual levanta questões profundas em torno de expectativas relativas a adaptações literárias, o agenciamento das acções das personagens, e a possibilidade de criar um genuíno diálogo cultural que ilumina ou questiona o tecido original com questões contemporâneas. É como se Simon Grennan, um autor e académico de grande rigor desta arte, fosse capaz de colocar de lado a "tradição" (sem a esquecer, e citando-a mesmo na tessitura do seu projecto), para empregar um método de grande razão. No enquadramento do bicentenário em torno do escritor inglês, ao mesmo tempo que Dispossession foi lançado, foi também publicado um volume académico, Transforming Anthony Trollope, com ensaios, relacionado com o projecto em termos latos. No site The Comics Alternative, tivemos a oportunidade de analisar ambos os livros, procurando que se informasse mutuamente, e ainda tivemos o privilégio de entrevistar Grennan. 
Podem aceder ao artigo aqui. E à entrevista aqui.
Nota final: agradecimentos a ambas as editoras, pelas ofertas dos livros, e a Simon Grennan, pela contínua amizade e simpatia. 

2 de fevereiro de 2016

Norak e outros títulos. J.-M. Bertoyas (Kobé/auto-edição)

O texto presente não se focará somente em Norak, le fils de Parzan, o último número da série de fanzines Kobé do autor francês Bertoyas, mas antes é um comentário sobre a obra deste autor. Relativamente obscuro fora dos circuitos da edição independente francófona europeia, mas neles uma referência apolínea, temos tido a fortuna de trocar alguma correspondência que leva ao acesso às suas publicações caseiras. É com Norak, que na verdade não se distingue em termos de grau de trabalho das anteriores, que finalmente conseguimos tecer estas ideias soltas que se seguem. (Mais) 

1 de fevereiro de 2016

6 de Fevereiro: Mesa-redonda no Museu do Neo-Realismo

Serve o presente post para indicar que integrada na programação complementar da exposição SemConsenso - Banda Desenhada, Ilustração e Política, ainda patente no Museu do Neo-Realismo (até 20 de Março de 2016), terá lugar uma mesa-redonda, no próximo dia 6 de Fevereiro, pelas 16h00, sob o título “Desenho e jornalismo, o senso da esfera pública”.

Para além deste vosso criado, enquanto comissário da exposição, a convidada para esta intervenção é a jornalista Ana Luísa Rodrigues, em representação do Sindicato dos Jornalistas.

Apareçam.

30 de janeiro de 2016

O Infante. Daniela Viçoso (El Pep)

Estimulante coincidência esta de que o livro de que falámos, Nau negra, também da El Pep, partilhe com estoutro a possibilidade de ser vistos como “ficção historiográfica”. Todavia, a linha de ficcionalidade de O Infante é bem mais elástica do que o livro de Fernando Relvas, que se ancora na realidade do tecido histórico para reforçar as alianças éticas implicadas na sua narrativa, ao passo de que no de Viçoso o propósito seja antes o de criar um ambiente brumoso, cujas referências sejam apenas o suficientes para a partir delas despedir um feixe de associações, mas sem preocupações demasiado concretas. (Mais)

29 de janeiro de 2016

Nau negra/The Last Black Ship. Fernando Relvas (El Pep)

Finalmente temos acesso a um projecto que estava prometido há algum tempo, o qual nascera num ambiente de crowfunding não muito bem-sucedido, mas que encontrou na editora de Pepedelrey um natural veículo de concretização. Trata-se de uma narrativa de algum fôlego, desenvolvida em ambiente digital, com uma temática histórica, aberta de um modo flexível a questões contemporâneas de repensar a história, a identidade e a comunicação entre os povos. Enquadrado no breve período em que se estabeleceu um vivo comércio entre os portugueses e o Japão, entre um semi-isolamento e o édito que o refecharia ao Ocidente, Nau negra centra-se sobretudo no encontro entre dois homens: um liberto de origem africana, conhecido por Reimau, e um ronin (sem utilizar esse termo) aparente, ambos servindo duas perspectivas diferentes dos mundos que se encontram, estando os portugueses reflectidos nas facetas distorcidas e secundárias desse mesmo encontro. Na verdade, passando-se em torno de Nagasaki, em 1618, já após a tomada de poder de Tokugawa Iesayu, os decretos anti-cristãos, a chegada dos ingleses, etc., já o declínio da presença portuguesa se precipitava, tornando este encontro então num canto de cisne de um poder pouco efectivo… (Mais) 

28 de janeiro de 2016

Volcan, Komikaze # 14, Hollow, Ping-Pong. Amanda Baeza, outros artistas (várias editoras)

Como introdução ao “campo específico” em que emergem todas estas publicações, remetemos os leitores às considerações tecidas a propósito de Mould Map e à introdução da bateria sob a designação “art comics”, a qual, não sendo explicativa nela mesma nem sequer produtiva em todos os seus quadrantes, admite porém uma circunferência suficientemente bem enquadrada para capitalizar as forças destes projectos. A razão, porém, da junção destes títulos deve-se ao trabalho contínuo e cada vez mais consolidada, inclusive em plataformas internacionais, de Amanda Baeza. Duas destas publicações são exclusivamente da sua responsabilidade, ao passo que outras duas contêm trabalhos seus. (Mais) 

25 de janeiro de 2016

Chantier Interdit au Public. Claire Braud e Nicolas Jounin (Casterman)

Este é o primeiro volume de uma nova colecção intitulada Sociorama, que parece vir a ser dedicada a projectos de banda desenhada que procurem adaptar, basear-se ou dialogar com trabalhos académicos em torno de questões sociais, sejam relatórios, inquéritos ou mesmo dissertações. Pelo que entendemos, os “temas” na calha rondam a indústria de cinema pornográfico, as profissões afectas aos voos comerciais e as práticas dos “sedutores de rua”. A colecção é dirigida por Lisa Mandel, uma autora que tem aliado a banda desenhada humorística a temas socialmente relevantes, tocando sempre as raias da realidade francesa contemporânea, e Yasmine Bouagga, uma investigadora do prestigiado CNRS. Este livro, apesar do seu público, escancara na verdade os portões de um estaleiro de construção civil e da realidade social que acalenta, mas oculta. (Mais) 

23 de janeiro de 2016

Sam Zabel and the Magic Pen. Dylan Horrocks (Knockabout)

A expectativa pessoal em relação a este novo livro do autor neo-zelandês era, na verdade, muito grande, uma vez que continuamos a considerar Hicksville (1998) uma pequena conquista na modernidade da banda desenhada internacional, e um verdadeiro gesto para criar pontes fortes entre as várias tradições nacionais num só contínuo. Além disso, Horrocks é um autor que tem dedicado algum tempo à reflexão sobre a sua própria arte, tendo fornecido alguns argumentos sólidos em relação, por exemplo, à problemática ahistoricidade da primeira obra de McCloud. Estes factores são importantes, uma vez que continuam a alimentar Sam Zabel, se bem que para resultados bem diversos. (Mais) 

21 de janeiro de 2016

Bagatelas: treze pequenos livros e fanzines. AAVV

Mesinha de Cabeceira # 27. XXXMas Special: Nadja, Ninfeta Virgem do Inferno. Nunsky (Mmmnnnrrrg) Depois de um tremendo intervalo entre os dois livros acabados do bravio autor do norte, eis que Nunsky regressa às lides rapidamente com um pequeno opúsculo. Mas todos os instrumentos são bem diversos dos de Erzsébet: a história completa que ocupa todo o número 27 do MdC é, a um só tempo, pesada e leve, séria e cómica, fresca e desesperante. A ninfeta do título vê o seu jovem namorado toxicodependente a perder a vida com um chuto mal-sucedido, e segue-lhe na peugada até ao Inferno, onde faz um pacto com o demónio que a torna numa personagem trágica e romântica. Ser-lhe-á concedido tempo de redenção com o namorado quantas mais almas conquistar para o Príncipe das Trevas. Este relato parece prometer-se como o primeiro episódio de muitas aventuras, e seguramente que haveria estômago para aguentar tamanha crueldade, morte sanguinária, heavy metal à anos 1980, e risadas à custa de beatos de séries de televisão de cartão canelado de décadas ainda mais rebuscadas. Um autêntico exercício de citação de bonecos-feitos, Nadja é, em termos figurativos, uma espécie de clash entre a luxúria e os laivos de fotorrealismo ma non troppo de um de Will Elder ou Angus McKie (e, no que diz respeito às cores, a explosão de diversidade do segundo e a o esbatimento do segundo, sobretudo na fase da Playboy, com H. Kurtzmann) e o pormenor quase doentio nas expressões e distribuição de moral, e até alguns aspectos do conteúdo, de Jack Chick (das “Chick Bibles”). Existem traços de alguma soberba crença na mundividência católica e a associada crença no Demo. Tratar-se-á este Nadja de um tortuoso panfleto de um Católico atormentado por gostar dos discos dos Slayer e Iron Maiden e querer ver realizadas as suas capas? Uma homenagem a todo um historial de comics de séries Z? Interprete-se como se desejar, e para mandar fora um cliché, Nadja é um bafejo de hálito quente e cerveja quente. 
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