27 de setembro de 2016

Afrodite, quadrinhos eróticos. Alice Ruiz, Paulo Leminski et al. (Veneta)

Esta é uma antologia de várias histórias curtas que foram criadas ao longo dos últimos anos da década de 1970, no Brasil, numa série de revistas mais ou menos irmanadas num mesmo selo editorial (a Grafipar, de Curitiba), e que haviam sido criadas por ímpeto e trabalho da dupla de argumentistas que se encontram na capa. Quer Ruiz e Leminski são respeitáveis escritores, poetas e agentes da cena intelectual brasileira do tempo da ditadura e, como oficiais da palavra, lavraram-na para as mais diversas disciplinas. Ora, é no seio da vida diária e alimentícia, digamos assim, que Ruiz se viu envolvida em algumas das novas revistas que pretendiam abrir novos caminhos feministas por entre as publicações da época. Por instância do autor Cláudio Seto, ogrande “samurai” dos quadrinhos brasileiros, Ruiz começou a escrever roteiros (eróticos e de terror para diversos projectos) para pequenas bandas desenhadas, sendo seguida pelo seu companheiro e vida e letras, Leminski, nessa tarefa. (Mais) 

16 de setembro de 2016

Ye. Guilherme Petreca (Veneta).

Este parece ser o maior livro do autor, terceiro a solo. Ye é um volume que quer abraçar de forma directa e concisa um género determinado, que englobará a fantasia, a aventura clássica (no sentido de movimento do herói), todo um percorrer por paisagens mais ou menos familiares por territórios consabidos da banda desenhada, a fábula antiga e, quem sabe, um entendimento contemporâneo de que não é sempre necessária a maior gravidade para conseguir tecer uma narrativa com um contorno de grande lição a um público mais jovem. Apesar da sua leveza, mesmo no sentido de Italo Calvino, no sentido em que opõe ao peso da vida a possibilidade de reflectir através de elementos oníricos e imaginativos, Ye é um livro que dispõe das suas estratégias expressivas da forma mais determinada e pensada possível. (Mais) 

14 de setembro de 2016

Carolina. Sirlene Barbosa e João Pinheiro (Veneta)

Este livro não tem como seus autores somente a investigadora e argumentista Barbosa e o artista Pinheiro. Sendo um livro que coloca a vida e a obra da escritora Carolina Maria de Jesus na superfície de um novo papel, conta em primeiro lugar com a autoria dela mesma, mas também de todos os factores que foram necessários para que a sua obra se formasse e ganhasse corpo público, sobretudo com o seu primeiro livro, Quarto de despejo, lançado em 1960 com projecção e sucesso nacional e, depois, internacional. A um só tempo biografia, exploração das condições de produção e auscultação da literatura de Carolina, o livro em si é uma pesquisa, (re)descoberta e interrogação, assim como uma possibilidade de colocar novas perguntas no tempo presente. (Mais) 

9 de setembro de 2016

Sequência mínima: exposição de Filipe Abranches (e texto)

É amanhã a vernissage de uma exposição de desenhos de Filipe Abranches, todos eles provenientes de projectos de banda desenhada, alguns deles "completos", outros "fatiados" de algo maior. 

Fomos convidados a escrever um texto que acompanhasse essa exposição, apanhado quase superficial de algumas reflexões debatidas e partilhadas com o autor, de quem somos colegas enquanto docentes e parceiros em projectos criativos, e que de certa forma teriam levado à selecção e baptismo desta mostra. 

Apresentamo-lo aqui, com algumas alterações de pouca monta, apenas com o intuito de prendre date, uma vez que não terá o valor que poderia ter caso fosse reforçado com os instrumentos de maior precisão académica que estão ausentes. (Mais)

8 de setembro de 2016

Hinário Nacional. Marcello Quintanilha (Veneta)

Os leitores de Tungsténio e de Talco de Vidro encontrarão neste novo pequeno volume um exercício de contenção em termos de diegese, mas não de intensidade. Os anteriores livros estariam próximos do género literário da novela, ou do romance até, sobretudo pela sofisticação e complexa rede que estabeleciam entre as linhas temporais e a as percepções, sensações e vida íntima das personagens. Hinário Nacional apresenta seis histórias, quase todas curtas (apenas uma passando largamente das 20 páginas), logo, necessariamente reduzidas em termos de eventos relatados, número de personagens, intervalo temporal, espaços, etc. Mas nada disso significa que muitas das outras características que tornam o trabalho de Quintanilha intenso estejam ausentes. Aliás, há antes uma espécie de transformação maximal dessas mesmas características em tão curtas histórias. (Mais)

2 de setembro de 2016

Topografias. AAVV (Piqui)

Se há pouco mencionámos, de passagem, a discussão desencadeada pela ausência de mais nomes femininos da antologia de banda desenhada contemporânea brasileira, eis uma publicação, já deste ano, que demonstra a capacidade organizativa de um colectivo feminino. É verdade que se se tratasse de uma publicação em que todos os autores fossem homens, à partida tratar-se-ia desse título tão-somente como tal, e não pautado por quaisquer características que se soltassem do seu sexo (a menos que mergulhassem de forma directa e sublinhada dessa mesma circunstância). O mesmo não ocorre de forma gratuita ou forçada com publicações “de mulheres”, mas a verdade é que aqueles títulos caracterizados por essa circunstância as mais das vezes demonstram elementos que se revelam claros nas suas intenções de identidade sexual, política e de diferenciação contra uma certa visão hegemónica e normativa. Se nos recordarmos de algumas experiências portuguesas, desde Weavers of Speech a Rata, encontraremos experiências análogas em que a oportunidade de publicar em ensemble leva a que se sublinhem essas tais características, mas sem jamais as arvorar de forma reificadora ou absoluta. Haverá outros momentos de junção de autoras de banda desenhada, mas onde essas características não ganham essa proeminência, como é o caso de Allgirlz ou QDCA, o que bem ao contrário de um problema é uma conquista. (Mais) 

28 de agosto de 2016

Revisão, bandas desenhadas dos anos 70. AAVV (Chili Com Carne)

Permitam-nos começar com uma impressão totalmente superficial e que o mais certo é não ter grande sustentação real. Estamos em crer que a recepção deste livro poderá vir a ser dividida em quase dois pólos opostos e contrários. Por um lado, a esmagadora maioria das pessoas que medeiam a recepção e discussão da banda desenhada, de várias gerações, estará demasiado familiarizada com muitas das peças capturadas nesta antologia para serem por elas surpreendidas ou então julgarão de imediato estar em falta algo (uma outra peça, um outro autor, uma outra natureza de trabalhos, etc.). Se nos permitem, graças ao desenvolvimento de trabalhos como o documentário VerBd, a exposição Tinta nos Nervos e uma colaboração de uma mostra de trabalhos de Carlos Zíngaro, ganhámos um conhecimento de alguns destes autores mais profundo do que a mera leitura da própria revista Visão e outras publicações que aqui se juntam. Não tendo sido aquela revista, publicada entre 1975 e 1976, algo que lemos nessa mesma época (até pela idade, seria impossível), a circulação do seu nome era já mítica quando nos tornámos leitores mais intensos de banda desenhada, e era com facilidade que se encontravam exemplares em segunda mão. Ou seja, a Visão, em si mesma, era até certo ponto uma referência “viva” nas discussões sobre história da banda desenhada portuguesa, ao contrário de algumas outras revistas da mesma época, como a Jacaré ou a Audácia, etc. (Mais) 

26 de agosto de 2016

After Nothing Comes/Little Angels. Aidan Koch (Koyama/MoMA PS1)


Tal qual como ocorre em qualquer outro território artístico e criativo, ou até mesmo da actividade humana, existe uma diversidade de gestos, intentos, alcances e intensidades que deve ser compreendida por ela mesma, não se pautando uma forma de cumprir um papel pelos princípios de outra. Mesmo assim, não deixa de ser uma fonte de felicidade quando nos deparamos com gestos que abandonam as preocupações usuais e clássicas da banda desenhada, como a de “contar histórias” ou até “mostrar relevância”, para lavrarem explorações da própria matéria que constitui a banda desenhada, ou com ela atingem contornos bem diversos dos usuais. De uma forma nem sempre clara, decisiva, passível de continuidade, ou totalmente subsumível a categorizações, e muitas vezes votadas ao desinteresse geral, até sobretudo por aqueles que mais dedicação parecem demonstrar à banda desenhada (nas suas prestações mais arregimentadas), são aqueles trabalhos que merecem o apodo, torto, historicamente erróneo e complicado, insuficiente, de “experimental”. (Mais) 

23 de agosto de 2016

O beijo adolescente. Rafael Coutinho (Cachalote)


A adolescência é uma fase da vida dos seres humanos (pelo menos no “primeiro” mundo “ocidental”) caracterizada pela total turbulência. Não é mais a inocência da infância, pautada por um qualquer grau de protecção, mas também de maravilha, encantamento e potencialidade total do mundo, mas não é ainda a segurança e acalmia que a vida adulta poderá eventualmente permitir, com maior ou menor encantamento. É uma fase em que o medo do futuro, que surge como um peso inexorável e uma inconstante incerteza, vem traficar medos, ímpetos, vontades em formação, conturbadas insatisfações, e ensejos contraditórios. Mas é ao mesmo tempo um momento de potencialidade de desenvolvimento incrível. “Energia em estado bruto”, como explica uma das personagens. Um acesso a poderes especiais. (Mais)

19 de agosto de 2016

Les enfants de Sitting Bull. Baudoin (Bayou)

Como em quase toda a sua obra, como se se tratasse do seu baixo contínuo, quando Baudoin explora a memória nos seus livros não a faz com o intuito da sua exposição, mas sim no de a transformar numa forma de inquirição não apenas do passado mas da própria individuação de quem a possui. Em que medida é que a memória não nos pertence somente, mas nos faz? Que responsabilidades éticas temos nós de nos lembrarmos de uma certa forma? Que permite a recordação para repensar a história, seja ela pessoal ou familiar, histórica ou colectiva, cultural ou política? Colocando a pergunta de uma forma mais simplista e associada ao título do livro, modo pouco oblíquo de Baudoin sublinhar uma das questões principais do livro mas que não surge como matéria central: quem são os filhos de Sitting Bull? (Mais)